sexta-feira, 4 de março de 2011

Frágil

Voltei a ver-te. Tinhas prometido que esse teu lado não regressaria, que não deixarias que os pesadelos te ensombrassem de novo. Mas eu voltei a ver-te, a esse teu eu nu e desprotegido.
Desta vez, porém, não me pediste que fosse embora. Desta vez, em silêncio, desviaste o olhar para a sombra e sussurraste-me que ficasse. Não tinhas de o fazer, mas tê-lo ouvido das tuas palavras mudas, provou-me que estava certa quando resolvi ficar por perto.
Aproximei-me do teu corpo frágil e, antes de te tocar, olhei atentamente para ti. O teu medo mascarava-se em lágrimas transparentes. Deixavas que escorressem pela pele até se atirarem, desprotegidas, do teu queixo para o teu colo. Estavas aconchegado em ti mesmo.
Toquei-te a roupa. Estava húmida. Suponho que estivesses nesse choro pouco contido há bastante tempo. Depois, agarrei uma das tuas mãos. Sem força. Só queria dar-te a sensação quente da pele contra a pele.
Não me afastaste, como julguei que farias. Deixaste que acarinhasse a tua pele, como quem faz cócegas a uma criança. Não te mexeste. Não reagiste sequer ao meu contacto. Apenas me fizeste perceber que te era confortável. Com a ponta dos dedos percorri todas as linhas da tua mão que, pouco a pouco, foi ficando mais quente.
Não sei dizer por quanto tempo ficámos assim. Em silêncio. Sem que olhasses sequer para mim.
Depois, lentamente, senti que as gotas de água que caiam do teu rosto fraquejaram, até se extinguirem por completo. Foi então que o músculo da tua mão se mexeu. Um dos teus dedos pousou sobre os meus e apertou-os. Senti um arrepio percorrer-me todo o corpo, mas mantive-me serena.
Não foi preciso que dissesses a palavra. Sabia que a tua voz não tinha força, e os teus olhos estavam translúcidos de mais para a reflectir. Naquela tarde, bastou o toque da tua pele contra a minha para saber que estavas grato. E sem dizeres nada, disseste tudo aquilo de que precisava para te poder ajudar.

1 comentário:

Pedro disse...

Muito bom, Rita. Gostei bastante! :)