sábado, 11 de julho de 2009

Silêncio

Soam vozes, gritos, palavras imperceptíveis ou às quais somos, pelo menos, indiferentes. Cercam-nos intermináveis luzes ofuscantes, brilhos tremeluzentes, muitas vezes reflexos do sol transparecido nas janelas em redor. Caminhamos com passos pesados sem rumo à vista, ou acorrentados a uma rotina que esconde o mesmo horizonte. E, finalmente, chegamos a casa, deixamos cair o corpo cansado sobre uma almofada aconchegante e, então, fechamos os olhos e procuramos esse silêncio. Pensamos que, como por magia, todo o resto do mundo deixará de existir, tudo porque, naquele instante, nos percorre uma necessidade de calma, de não sentir nada, ou melhor, de fingir que aquilo que se sente não é importante. O silêncio é afinal um destino; buscamo-lo como a uma meta, mas torna-se muito mais difícil de se achar que qualquer caminho ou fim do mesmo.
Gosto desta palavra e gosto simplesmente pelo que transmite, como que se por simplesmente a deixar deslizar pela minha língua, fosse já possível alcançar o estado a que remete. O silêncio não é uma ordem, não é uma pretensão, acaba por ser apenas um vazio, uma forma de estarmos connosco mesmos. E, às vezes, queremos tanto pegar-lhe, alcançá-lo que basta pensarmos no silêncio para que surja na nossa mente um xiu interior, e tudo se torne profundamente calmo.
Algo me leva, porém, a acreditar que esse dito silêncio não existe, pelo menos não na forma que lhe damos. O que me faz lembrar o silêncio? O escuro, um lugar sem focos de luz intimidantes, onde não há sombras nem movimentos que sem querer acabam por roubar o sossego. Sim, mas e esse lugar existe? Pensando com afinco descubro que não. Nem a noite mais escura sem estrelas ou sem aquele luar brilhante que faz parecer que o sol apenas perdeu intensidade consegue ser totalmente negra. O escuro é assim uma palavra ilusória.
O que mais me faz pensar no silêncio? Ausência de ruído, uma absoluta inércia de som ou de vozes, por mais tranquilizantes que o sejam. Pensemos nisso: ausência de som. Seria isso possível? Olharmos em redor, buscarmos o que nos rodeia sem que qualquer ruído fosse notado? Acho que não. Há, de facto, momentos em que pensamos ter chegado a esse estado, em que tentamos com tal força da mente que tudo se cale para ouvirmos apenas o vazio, que julgamos estar em silêncio, mas é igualmente ilusório. Se simultaneamente não houvesse vento, nem a proximidade das ondas do mar a bater nas rochas e todos dormissem, inclusive os animais, mesmo o mais pequeno insecto, outros barulhos surgiriam. Iríamos aperceber-nos da existência de coisas que até então desconhecíamos - ou ignorávamos - como o bater compassado do nosso coração, que então pareceria querer fazer ouvir-se mais que nunca.
Silêncio. Começo a pensar que tenho vivido enganada. Começo a aperceber-me de que o silêncio é uma forma egoísta de fazer com que, num momento escolhido a meu querer, o resto do mundo deixe de viver, tudo para que eu possa descansar tranquilamente. Quem sabe se, neste momento, um outro alguém, novo ou velho, feliz ou triste, busca um recanto pacato, um silêncio absoluto, e eu, eu que me julgo capaz de o definir, quebro essa possibilidade provocando um estranho ruído com a ponta da caneta contra esta folha branca. Para mim está o silêncio perfeito, mas para esse outro, qualquer perturbação pode quebrar a sua calma. É o que estou a fazer.
Apercebo-me de que o silêncio não pode ser apenas físico; é antes algo interior. Sim, o silêncio deve, antes de mais, ser conseguido na nossa mente. Fechamos os olhos, tentamos apagar os vestígios dos ruídos do nosso pensamento e deixamos que o escuro produzido pelas pálpebras fechadas e a ausência de som provocada pela nossa mente vazia saltem cá para fora. Parecerá então que todo o mundo se calou para nos deixar dormir, e que todas as luzes limaram as arestas para não nos ferir. Silêncio.
Sim, acho que é isso que sentimos: silêncio. E desta vez não fomos egoístas. Desta vez, não mandámos calar as pessoas em redor; nem desejámos a noite mais negra quando duas crianças brincavam ao sol; desta vez, conseguimos alcançar o que queríamos sozinhos. Acho que é afinal isso o silêncio. É deixarmos que seja a paz a vir ter connosco, da forma como dela precisamos no momento, sem que ela falte aos outros, da forma como dela também precisam nesse instante.
E enquanto leio estas palavras? Também quebro o silêncio? Se para mim ler é tranquilizante penso que não, mas e se numa ocasião as palavras me gritam ou choram, como posso ignorar o som?
Afinal o silêncio é difícil de definir. Acho, enfim, que basta pensá-lo e esperar que esse esforço acalme a mente sem que a deixe adormecer, sim, porque corremos o risco de ter um pesadelo, onde os ruídos estilhacem, como que se de um cristal se tratasse, o silêncio que havíamos conseguido.

1 comentário:

Joana Clara disse...

Parabéns Rita! :')

Na minha opinião, há muitas pessoas que se vão ver reflectidas neste teu texto.

Já ganhaste uma fã (posso já dizer, incondicional) do teu trabalho! ^^

Beijinho grande *